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Transexuais buscam capacitação para conseguir emprego formal no Triângulo Mineiro

Por: Portal Sete 30/10/2017 12:52

Segundo Movimento Gay de Minas (MGM), mais de 90% dessa população está fora do mercado formal no Estado e grande parte ainda recorre à prostituição para garantir o sustento.

Louca, avental e olhos atentos. Márcio Zacarias, de 48 anos, tenta apreender cada detalhe passado pelo instrutor em uma das aulas do curso de organização de evento e cerimoniais que frequenta em Uberlândia. Mesmo com ensino médio completo e fluência em espanhol e italiano, a carteira de trabalho ostenta a data de março de 1989 como a da última assinatura. Transexual, Márcio busca em uma iniciativa oferecida pelo poder público a esperança de se inserir no mercado formal e fugir da estatística que coloca os transexuais como reféns do subemprego e da prostituição.

De acordo com o Movimento Gay de Minas (MGM), mais de 90% dessa população está fora do mercado formal no Estado e grande parte ainda recorre à prostituição para garantir o sustento. Na cidade mineira, essa realidade não é diferente. São comuns os relatos de transexuais, travestis e transgêneros sobre a vivência de uma rotina de medo, violência, discriminação e falta de oportunidade.

Reprodução G1.com
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Para tentar se inserir em uma vaga formal, Márcio e outras 11 pessoas, a maioria transexuais, participam de um curso de capacitação, que é batizado de “Tópicos de Organização de Eventos” e organizado pela Secretaria de Estado de Trabalho e Desenvolvimento Social (Sedese). As aulas iniciaram em agosto e são exclusivas para o público LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais). A formatura está prevista para novembro.

“Eu só quero uma oportunidade, só almejo mostrar para um empregador que eu consigo crescer em uma empresa. Qualquer trabalho, seja como camareira, é de grande valia pra mim. Eu já me prostituí, já mudei de país e já passei por muita coisa nessa vida. Se eu pudesse escolher, eu não seria trans”, desabafa Márcio Zacarias.

Márcio já perdeu as contas de quantos currículos enviou e diz estar disposta a tirar as aplicações de silicone que tem pelo corpo para ser mais bem aceita na sociedade. “Eles até chegam a chamar para a entrevista, mas mudam o semblante quando olham pra mim. Eu fico com vergonha de dizer que tiraria o silicone após três meses em uma empresa. Para trabalhar, eu coloco uma faixa nos seios. Tenho o sonho de atuar na hotelaria”, conta.

Reprodução G1.com
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Mudando a própria história

A trans Thacyla Costa, de 28 anos, é natural de Rio Branco (AC) e chegou a Uberlândia há oito anos para se prostituir. Para ela, o curso é uma oportunidade de mudar o próprio destino.

“Vim em busca de uma vida melhor. Comecei meu processo trans aos 15 anos e, desde então, tudo foi muito difícil. Não terminei meus estudos e fui tentar ganhar meu dinheiro. Escolhi Uberlândia e hoje atendo clientes em um apartamento no Centro e também atuo na internet. Eu quero sair dessa vida e o curso é uma chance para isso”, diz.

Por 36 horas mensais, Thacyla explica tirar cerca de R$ 3 mil como prostituta. Como organizadora de eventos de maneira autônoma, a renda pelo mesmo período de trabalho é estimada em R$ 2 mil.

“Eu estou ciente que devo ganhar menos inicialmente, mas a vida que eu vivo hoje não sobra nada. Para me ‘montar’, eu gosto de roupas e maquiagens caras. É uma ‘fake’ [sic] de luxo, que não me sobra nada no fim do mês”, declara Thacyla.

Segundo o instrutor do modo integral do curso, Renato Ribeiro, durante os meses de aulas, ele trabalhou principalmente a autoestima dos estudantes. Além de aulas de matemática e português, foram ministradas lições de oratória, mercado de trabalho, culinária e recursos humanos.

“A primeira coisa que tive que mostrar para eles é que todos são capazes. Eles acham que sempre serão tidos como diferentes e que sempre deverão estar em lugares destinados ao público LGBT. E não é assim. O objetivo foi mostrar que eles podem ser lembrados pelo profissionalismo. Dos 12 que irão formar, sete fazem ou já fizeram programas e o que conversei com eles durante esse tempo é que eles podem viver além disso”, informa Renato.

Estou capacitado e agora?

Segundo o MGM, após a capacitação, o público trans ainda enfrenta dois problemas: conseguir trabalho e se manter em uma vaga formal. “O público trans é extremamente marginalizado. Eles têm altos índices de evasão escolar e um preconceito altíssimo. A capacitação é muito boa, mas fica aí o gargalo. Tem muito mais a ser trabalhado para essa inclusão no mercado de trabalho acontecer”, acrescenta o diretor do movimento, Marco Trajano.

A trans Kiara Andrade, de 28 anos, conta que, após muitas tentativas, conseguiu uma vaga de emprego, mas não se manteve porque era obrigada a usar o banheiro masculino.

“No local, a gente precisava trocar de roupa e colocar um uniforme adequado. Eu não consegui conviver com as piadinhas nos banheiros. Eles me viam de calcinha e sutiã no banheiro e ‘zombavam’ de mim. Era muito desconfortável, então escolhi sair”, lamenta Kiara.

Reprodução G1.com
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Curso

O curso “Tópicos de Organização de Eventos” atende demanda de qualificação profissional levantada em audiência de Fórum Regional do Governo de Minas realizado em Uberaba em 2015. O curso, com carga horária de 140 horas, teve 20 vagas abertas para Uberlândia.

A indicação do tipo capacitação com maior demanda no Triângulo Mineiro surgiu do Grupo de Trabalho Políticas Trans MG, que foi criado em 2017 e conta com representantes de movimentos sociais LGBT. O grupo realizou pesquisa, por meio de formulário eletrônico, junto ao público trans da região, para conhecer as áreas de interesse.

A diretora do Sine (Sistema Nacional de Emprego) na cidade, Gleide Starling, que integra a equipe da Sedese no projeto, explicou que o próximo passo é fazer um cadastro no sistema e encaminhar uma carta de incentivo para empresas privadas com o objetivo de inserir o público LGTB no mercado de trabalho.

De acordo com o Governo Estadual, é a primeira vez que um curso de qualificação profissional específico para público trans é promovido pelo Estado. Para o projeto, foi feita uma licitação e novos cursos devem ser oferecidos em 2018- porém, as propostas ainda estão em fase de planejamento.

Ainda conforme o governo, os cursos de qualificação profissional têm como objetivo ampliar oportunidades de empregabilidade e geração de renda, e sensibilizar o empresariado para contratação. Os alunos são incentivados a se tornarem microempreendedores individuais, ou se organizarem em empreendimentos coletivos.

Fonte: G1.com / notícias

Postado originalmente por: Portal Sete

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