Projeto em Fabriciano estuda a fabricação de tijolos com lama despejada no Rio Doce

Wôlmer Ezequiel

O produto é feito em escala laboratorial, de forma científica, para testar a funcionalidade

O rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco/Vale/BHP, em Mariana, completa dois anos neste domingo (5). A tragédia que prejudicou milhares de vidas foi considerada o maior desastre ambiental do país em todos os tempos. Para amenizar os impactos causados por essa catástrofe, muitas pessoas têm se debruçado sobre projetos em diversos ramos do conhecimento. O propósito de todos é aliviar a pressão que a catástrofe exerce até hoje sobre o ambiente e as vidas dos atingidos.

Professor-coordenador do curso de Engenharia Civil do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais (Unileste) e coordenador do projeto, Fabrício Moura Dias é uma das pessoas que dedicam tempo e conhecimento pela causa. O educador trabalha, com uma equipe que defende a ideia de utilizar a lama de rejeitos, fartamente encontrada no Rio Doce, para manufaturar materiais de construção civil. “O projeto busca promover uma interação do ser humano com diversas questões sociais. A lama do Rio Doce já é objeto de pesquisas há bastante tempo, porém a nossa preocupação foi em saber como retirar o resíduo que está no rio e como ele pode ser transformado em alguma matéria-prima alternativa para materiais de construção civil”, afirmou o professor, em entrevista ao Diário do Aço.

Fabrício Moura Dias, durante entrevista

Fabrício Moura também apontou outros objetivos buscados pelo projeto. “A gente tem uma linha muito direcionada a tijolos, mas também existe a possibilidade de fazer uma junção com massa cimentícia, tentando fazer materiais que tenham aplicação próxima ao concreto”, explica.

Escala laboratorial
Segundo o professor, o trabalho é feito em escala laboratorial, sendo preciso estudar, de forma científica, o material utilizado e compreender a sua funcionalidade ao longo do tempo. “Nossos alunos passam muito tempo estudando esse resíduo e tentando identificar uma série de elementos que são interessantes para fabricação desses produtos de construção civil. Então é algo que demanda um bom tempo”, salienta.

Resistência
Fabrício Moura acrescenta que, a partir da geração do material, é preciso conhecer a sua resistência e estabelecer um campo de aplicação para que possa trabalhar com esse resíduo dentro da construção e que ele ofereça segurança. “Temos que ter um controle tecnológico, porque quando se fala de tijolo, é preciso conhecer suas propriedades, como resistência, capacidade de absorção de água e limitação no processo de lixamento. Além disso, no processo da construção, o tijolo pode em diversos momentos lidar com chuva ou absorver alguma umidade própria do ambiente. Então, temos que ficar atento a tudo isso e ainda seguir os critérios da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT)”, detalha.

Tijolos são formados a partir da lama de rejeitos encontrada no Rio Doce

Consciência social
Conforme o professor, esse projeto tem a pretensão de formar um aluno para capacitá-lo a entender toda a complexidade do meio ambiente e as variáveis envolvidas, para que possa ajudar as pessoas que moram próximo aos rios e que sempre dependeram deles para obterem alguma renda. “Temos muita gente que foi afetada e que, de certa forma, está ligada à instituição ou com os alunos ou comunidade. Então a partir do momento que começa a dialogar com esse pessoal, nós podemos ganhar uma frente muito grande de pessoas envolvidas nesse processo e que queiram trabalhar em parceria com a instituição. Desse modo, elas podem dar sua contribuição no processo de recuperação do rio”, opina.

Participantes
Para a realização do programa de iniciação científica, o professor Fabrício Moura conta com a ajuda dos professores Edson Carlos de Araújo e Felipe Gustavo Fernandes. Além desses educadores, o projeto também possui a participação de vários estudantes. “Temos quatro alunos que trabalham mais diretamente por meio de bolsas, mas até tivemos alguns formados que já são engenheiros e que trabalharam durante o ano passado nesse projeto. E ainda contamos com grande quantidade de alunos colaboradores”, conta.

Dannilo Júnior é um dos alunos que participam do projeto

Estudante
O aluno Dannilo Júnior, de 23 anos, que participa do projeto há dois anos, fez uma avaliação do significado do seu trabalho para a comunidade. “É muito importante e gratificante, porque não só contribui para mais estudos, como também estamos promovendo de forma direta a recuperação do Rio Doce. Assim, as pessoas podem estar pegando os resultados que a gente obtém aqui no laboratório para está aplicando também no campo da área engenharia civil”, informa.

Segundo o aluno, a produção do material para construção civil é algo que pode ser feito de maneira simples, desde que tenha os estudos necessários para tal atividade. “No decorrer desses dois anos desenvolvemos tijolos, concreto e agora também estamos pesquisamos uma argamassa. E o método construtivo deles é bastante fácil de colocar em prática. Por exemplo, se a pessoa tiver uma prensa manual ou hidráulica, ela pode fabricar o tijolo, baseando em nossos estudos”, conclui.

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