Caso Backer abala mercado que cresce cerca de 30% ao ano

Fabricação de artesanais sobe de forma sustentada no país; Mapa tem 1.178 empresas registradas

Enquanto o mercado de cervejas deve crescer cerca de 3% neste ano, a estimativa do segmento artesanal da bebida é de um avanço de 20% a 30% no país, que já conta com 1.178 cervejarias. Somente no ano passado, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) concedeu registros para 273 novas fábricas, 45 delas em Minas Gerais, terceiro maior Estado produtor. Com a contaminação da cerveja Belorizontina, da Backer, suspeita de estar associada à morte de ao menos quatro pessoas, o setor se prepara para uma queda nas vendas, mas acredita que as dificuldades serão superadas. A marca investigada é responsável por metade da produção mineira.

O Estado tem 157 cervejarias registradas no Mapa. A maioria é de pequeno porte, com produção inferior a 30 mil litros por mês – a Backer produzia cerca de 800 mil litros mensais.

Em 2019, o mercado de cerveja artesanal subiu 20% em Minas, mesmo percentual esperado neste ano. “Somos (Minas) o Estado da economia criativa, reconhecidos pela gastronomia inovadora, e a cerveja segue o mesmo caminho”, pontua o vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Cervejas e Bebidas em Geral do Estado de Minas Gerais (Sindbebidas-MG), Marco Falcone. O Estado fica atrás apenas de São Paulo e Rio Grande do Sul no quesito produção.

No Brasil, a cerveja artesanal alcançou 35% de crescimento no ano passado e vem sustentando alta de cerca de 30% nos últimos anos, com destaque para os bares que produzem a própria bebida. O negócio avança também em participação no mercado e corresponde a 2,5% do setor hoje. A expectativa é chegar a 3% em 2020, segundo o presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), Carlo Lapolli. “Empregamos hoje mais de 13% da força de trabalho da indústria cervejeira do Brasil”, afirma.

Segundo ele, o aumento do número de marcas contribui para tornar o preço mais competitivo, o que ainda é um obstáculo. “O grande desafio é a democratização do público consumidor. Isso passa pela redução da carga tributária e por questões internas, como ganho de escala e eficiência energética”, diz.

Lapolli ressalta a característica de descentralização do mercado e a difusão de fábricas nos interiores: “Em Minas Gerais, a produção era muito restrita a Nova Lima, e, agora, vemos o crescimento de pequenas cervejarias nas regiões de Juiz de Fora e São João del Rei, por exemplo”.

A Fürst, cervejaria de Formiga, no Centro-Oeste de Minas, cresce justamente apoiada no conceito de beber localmente. Desde a fundação, em 2013, a produção da empresa cresceu dez vezes e, atualmente, é de 30 mil litros por mês. “As pessoas têm valorizado a produção local”, diz o diretor da Fürst, Geraldo Leite Júnior. Com 12 estilos diferentes de cerveja, a empresa espera crescer 20% neste ano.

Na Krug Bier, a expectativa é de 30% de crescimento em 2020. Quando a empresa saiu da capital, em 2005, para construir uma fábrica maior no Jardim Canadá, em Nova Lima, na região metropolitana, foi a primeira a se instalar no local, que hoje abriga 16 cervejarias. A marca produz 300 mil litros mensais de cerveja. “As pessoas percebem que têm diferentes opções e conseguem ter experiências gastronômicas diversas”, destaca o sócio Alexandre Bruzzi.

A Küd, que completa 10 anos em 2020, começou como um hobby e, agora, tem 35 rótulos registrados. Também localizada no Jardim Canadá, a fábrica possui capacidade para produzir 30 mil litros de cerveja por mês, destinadas principalmente ao mercado mineiro. “Neste ano, vamos trabalhar mais com produtos especiais e premium”, conta um dos sócios, Bruno Parreiras.

Metade da produção do Estado é afetada

Há 20 anos no mercado e considerada a maior cervejaria artesanal do Brasil em volume de produção, a Backer corresponde a quase metade do faturamento do setor em Minas Gerais – ela ganharia R$ 8 milhões de um total de R$18 milhões mensais, segundo o presidente do Sindbebidas-MG, Marco Falcone. Dos 1,6 milhão de litros de cerveja produzidos no Estado, ela seria responsável por 800 mil.

“Em qualquer setor que sofre um impacto negativo e explosivo, é de se esperar que haja retração do público consumidor. Mas nosso público é extremamente maduro, e esse impacto vai ser absorvido rapidamente. Há uma relação de confiança conquistada nos últimos anos”, afirma Falcone.

O presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), Carlo Lapolli, acredita que os efeitos serão sentidos com mais força em Minas Gerais, embora seja cedo para fazer uma avaliação quantitativa. “No Estado, haverá talvez um impacto maior nas vendas num primeiro momento. É um episódio muito isolado e infeliz, inédito no Brasil e no mundo, que chama a responsabilidade do setor para revisar seus processos”, diz. A entidade solicitou ao Mapa a proibição do uso de dietilenoglicol e monoetilenoglicol, ligados à intoxicação das vítimas, no sistema de resfriamento das cervejas artesanais.

Segundo a Associação Mineira de Supermercados, ainda não há dados sobre o desempenho das vendas de cervejas nos estabelecimentos em janeiro.

Saiba mais

Conceito. Segundo o diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), Paulo Petroni, cerveja artesanal é aquela produzida de maneira não industrial, com portfólios amplos e receitas diferentes a cada lote.

Entenda. Até o momento, foram notificados 19 casos de síndrome nefroneural, associada à intoxicação por dietilenoglicol, substância encontrada em diferentes rótulos da Backer. O Mapa intimou a empresa a suspender a produção e comercialização de todas as bebidas.

Posicionamento. A Backer informou em vários momentos que nunca comprou ou utilizou o dietilenoglicol em seus processos de fabricação. A cervejaria afirmou que emprega o monoetilenoglicol, cujas notas fiscais de aquisição já foram compartilhadas com a Polícia Civil e o Mapa. As investigações continuam.

Fonte: O Tempo

Postado originalmente por: Portal Sete

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