Motim no Presídio Floramar provoca debate nas redes sociais

Por Sílvio França  (Opinião)

 

A notícia de que vários motins ocorreram  no Presídio Floramar nos últimos dias levantou debates nas redes sociais. A publicação da reportagem sobre os fatos que ocorreram provocou discussões acirradas entre familiares de detentos, defensores de uma cadeia mais humanizada, os que acreditam que os detentos hoje possuem mais direitos que o trabalhador e pessoas que defendem penas mais rígidas devido aos casos de violência que se tornam cada vez mais frequentes.

É grande o número de comentários na publicação feita na página do Sistema MPA sobre o assunto.  Os comentários exigindo tratamento severo com autores de crimes logo provocaram manifestações de familiares de detentos e pessoas que defendem uma completa reformulação do sistema carcerário brasileiro.  

Alguns dos comentários tem forte influência de religiosidade Cristã pedindo que as pessoas não julguem, sob o argumento bíblico de que cabe apenas a Deus esta atribuição. Outros se fundamentam em teses estudadas principalmente por profissionais das áreas de ciências sociais e humanas  para defender políticas públicas mais eficientes como a criação de presídios que ressocializem e não apenas retirem temporariamente da sociedade estas pessoas, que sem o acompanhamento adequado voltam a praticar crimes.

Também foram publicados comentários de familiares de pessoas que hoje estão presas e que em seus depoimentos mostram que as cadeias hoje contam com vários tipos de indivíduos como o pai desempregado que não paga pensão, o traficante, a esposa que reagiu às constantes violência do marido de maneira drástica e o pedófilo que estuprou e matou crianças.  

As postagens que criticam os presos de maneira generalizada, geralmente se apoiam em crimes de grande comoção popular para justificar seus argumentos. Um exemplo é o  recente caso do pai que em Divinópolis, presenciou a esposa ser estuprada praticamente na frente do filho. Praticamente porque de fato os dois não estavam  no mesmo cômodo da casa, mas estavam no mesmo ambiente o que por si só já é bastante perturbador.

O debate também chegou ao caso registrado nesta semana, quando um homem de 62 anos que havia ingerido álcool se envolveu em um acidente que matou uma diarista que trafegava de motocicleta pelo bairro Floresta, em Divinópolis.  Alguns disseram que ele cometeu um erro simples e que portanto não merecia estar no Presídio Floramar, enquanto outros argumentam que “álcool e direção” é crime que pode tirar a vida das pessoas e que portanto é sim um crime grave beber e dirigir. 

As discussões mostram que hoje o sistema penal brasileiro é falho e sua própria maneira de funcionar atrapalha qualquer tentativa de ressocialização.  Ao colocar um traficante na mesma cela que um pai de família que não pagou pensão por não conseguir trabalho, cria-se oportunidade para que o mesmo saia da cadeia ainda pior do que entrou, já que a oportunidade do tráfico pode ser a solução para manter a pensão em dia.  Cria-se um círculo vicioso de criminalidade já que este pai tem grandes chances de voltar para a cadeia, mas agora por um crime mais grave.

Uma das queixas mais comuns do divinopolitano é o fato de o detento ter prioridade no atendimento quando precisa ser levado para a UPA. A medida é tomada porque um tempo prolongado de permanência na Unidade de Pronto Atendimento, poderia servir como oportunidade para que membros de facção criminosa tentem resgatar o “colega”, colocando assim demais pacientes em situação de risco. Há ainda a possibilidade de que com mais tempo, um plano  individual de fuga possa ser bem sucedido.  Embora o Presídio seja dotado de consultório médico, alguns procedimentos são impossíveis de serem feitos no local.

A discussão é realmente polêmica, mas deixa claro que o sistema precisa de uma revisão e de investimentos urgentes. As administrações prisionais tentam separar os detentos em cela, levando em conta o grau de periculosidade de cada um.  Todo o trabalho porém é feito de maneira precária com uma classificação muito subjetiva do que seria um “nível de bandidagem”.  Presos por crimes leves, com histórico pacífico, como não pagar pensão porque está desempregado, segundo os cientistas sociais, deveriam receber do sistema um tratamento diferente, com uma rotina de curso profissionalizantes e recuperação da escolaridade ( incluem-se aí as disciplinas que tratam do bom convívio social).

A mesma tese defende que muitos traficantes optaram por este caminho por falta de oportunidade. A polêmica se torna maior neste ponto porque muitos defendem que algumas pessoas são irrecuperáveis e que portanto seria desperdício de dinheiro público investir em um programa de ressocialização. 

O sistema prisional se mostra tão plural quanto  a  sociedade  é. Com situações particulares que merecem políticas públicas mais eficientes que consigam dar a cada um o tratamento adequado. Há os que precisam de medidas de ressocialização realmente eficientes como cursos e acompanhamento de psicólogo e assistente social  e há também os que jamais deveriam ser devolvidos para o convívio em comunidade.  Tem de se levar em conta também que o sistema que mal dá conta dos que estão presos, também deveria estar preparado para um “tratamento da família”, já que muitos são oriundos de núcleos disfuncionais. 

Há quem diga que a raiva que muitos manifestam contra os que estão presos, é na verdade consequência de um país onde os representantes cometem crimes tão ou mais graves que os presos e não são punidos. Que por causa destes crimes faltam necessidades e serviços básicos que provocam o aumento da violência e reações de indignação e revolta contra o cenário que foi montado não pelos cidadãos, mas pelos que foram eleitos para resolver estes problemas.

O cenário pede penas severas para quem merece e oportunidades para quem precisa, Pede também um pouco mais  de critério na hora de se avaliar o que ocorre, para evitar medidas como “mais polícia”. Estas  não resolvem o problema e tem demanda eterna. Afinal, a Polícia Militar na maior parte do tempo faz bem o seu trabalho, mas ela exerce apenas uma função neste sistema onde as leis ainda são frágeis, o judiciário conta com pouca estrutura, as escolas estão sucateadas e as famílias pouco participativas.

Postado originalmente por: Minas AM/FM

Um comentário em “Motim no Presídio Floramar provoca debate nas redes sociais

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    24 novembro , 2017 em 20:08
    Permalink

    As pessoas dizem muito sobre o ambiente dentro de uma prisão e pouco realmente sabem o que se passa dentro dela.
    Como a reportagem faz menção, sobre a convivência de presos de artigos como tráfico, roubo e furto, em celas de pais que não pagaram pensão, e isso não acontece de fato no Presídio Floramar.
    No caso pode se ocorrer de uma pessoa que ja praticou crime de roubo, receber alvará de soltura, e retornar ao ambiente carcerário como um não pagador de pensão alimentícia.
    Precisa se sim de uma reformulação nos investimentos realizados para o Sistema Prisional, mas é necessário também que presos além de aprender o básico para a convivência humana como respeito e honestidade além de entenderem as oportunidades de atendimento para o preso em egresso, pois muitos recusam o atendimento pelo simples fato de não demonstrarem interesse no atendimento e com isso perdem a chance de angariar benefícios como ttabalho e estudo.
    Por exemplo, o preso que recusa atendimento psicológico, ou o comparecimento a CTC, dificilmente terá a oportunidade de trabalho ou de estudo uma vez que a Comissão Técnica de Classificação é de suma importância para a seleçao da pasta do preso na concessão dos benefícios e muitos deles recusam este atendimentos por estarem preocupados con outros a afazeres.
    Resumindo, pra se dizer o que realmente se passa em um presídio somente trabalhando nele, é necessária uma reformulação do sistema sim, mas em 90% dos casos o que se vê são informações desencontradas sobre os acontecimentos e sobre a realidade da rotina de uma unidade prisional.

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