Sílvio França opina sobre polêmica da exigência de roupa para frequentar alguns estabelecimentos

Originalmente publicada pelo Jornal “Gazeta do Oeste” do dia 08 de junho de 2017

“Com que roupa

Enquanto na Europa a tendência é investir em qualidade de vida e desenvolver o ser, o Brasil segue na contramão e cultua a ostentação e o ter. Este cenário que na verdade produz pessoas cada vez mais tristes, vazias e insatisfeitas com a vida, termina por gerar situações que beiram o tragicômico.

Um exemplo claro deste quadro é o debate nas redes sociais sobre um bar da cidade, que nem é da cidade, estar certo ou errado, ao impor regras de indumentária para que as pessoas possam frequentar o local. Enquanto uns dizem que estão apenas defendendo o bom gosto, outros apontam para uma provável exclusão de que digamos, não se enquadra nos padrões.

A casa, que oferece cardápio de happy hour e nada “sofisticado”, não permite chinelo, boné, bermuda ou regata, clássicos do vestuário do país que é tropical e muito quente. O interessante é que as roupas com muito corpo à mostra são restringidas apenas para o público masculino, para as mulheres, não faz diferença o tamanho do decote ou da saia, o que reforça ainda mais os padrões sexistas da cultura brasileira e da mulher objeto. A mulher pelada é atração porque atrai mais público.

Sempre tive comigo que a cultura da ostentação cria falsos ricos que se atolam em cartões de crédito para aparentar um padrão de vida que não conseguem sustentar. O rico de verdade, geralmente prefere ser discreto, até porque contar que se tem muito dinheiro costuma ser uma chamariz para bandidos.

É a cultura do que estaciona o carro a uma distância de cinco quarteirões de onde vai para fugir do rotativo, paga conta no cartão, mas desfila com calça de grife e tênis comprados em prestação no modelo “sumir de vista”.

Há quem diga que definir regras de roupa cria uma espécie de identidade visual que faz com que pessoas do mesmo gosto se identifiquem e assim frequentem o mesmo ambiente. Isso ajuda a sociabilizar e pode até criar um ambiente mais confortável para estes clientes, mas na prática, afasta quem não se enquadra em tais padrões e muitas vezes o excluído tem contracheque que permite comprar o bar inteiro.

No fim é uma lógica bizarra onde o estabelecimento comercial define quem pode consumir sua mercadoria, enquanto que esperto é o consumidor que exige que o espaço se adéque as suas necessidades, afinal quem escolhe onde vai gastar o dinheiro é o dono da carteira.

Podem argumentar que regras de indumentárias são tradição, como advogado andar de terno e não se usar bonés em espaços ditos formais. Regras que também não fazem muito sentido, mas “passam”, por se tratar de uma conduta profissional. Na hora do lazer, bom mesmo é estar confortável para aproveitar o momento e fugir dos trajes do dia a dia.

Acho interessante os que afirmam que espaços assim estão tentando manter um padrão. Acabo sempre me perguntando: padrão de que? De caretice? De Chatice?

Entendo que sempre estou adequado para qualquer ambiente, afinal, não ando pelado. O que pode acontecer é o local não estar adequado para me receber. Meu dinheiro vale como o de qualquer outro e tem lugares loucos para recebê-lo. Traje não é garantia de contracheque, até porque, tem regata e boné que custam mais do que um terno completo.

No fim, cada um frequenta onde quer e pode e se as regras não o incomodam, mesmo que diminuam sua liberdade é problema de cada um. Eu simplesmente entendo que quando estou em um bar, boate, lanchonete ou qualquer outro estabelecimento comercial estou contratando um serviço e desta forma, naquele momento, eu sou o patrão. Se alguns patrões não se importam de serem mandados pelos seus empregados, isso não é problema meu!”

Postado originalmente por: Minas AM/FM

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