Getúlio Vargas longe da revitalização

Fluxo intenso de veículos, associado à imprudência dos pedestres, torna a avenida perigosa. Flagrantes de desrespeitos às regras de trânsito são observados a todo o momento (Foto: Marcelo Ribeiro)

A Avenida Getúlio Vargas é retrato de um Centro que não se preparou para o crescimento da cidade. O intenso e tumultuado fluxo de pedestres e veículos na via resulta em perigo, desconforto, poluição visual e falta de acessibilidade, sobretudo pelo grande número de ambulantes, regularizados ou não. Pouco arborizada, com passeios irregulares e deteriorados e pontos de ônibus improvisados – apesar de ser embarque e desembarque de quase todos os usuários da Zona Norte -, a área de 850 metros de extensão, entre as avenidas Rio Branco e Itamar Franco, precisa ser revitalizada. Para o arquiteto e historiador Marcos Olender, no entanto, é preciso ir além, repensando a atribuição do Centro como única área de referência para comércio, serviço e construção civil.

A obra de revitalização da Getúlio Vargas seria feita por meio de um contrato de empréstimo de R$ 31,5 milhões entre o Executivo local e a União, dentro de uma viabilidade financeira surgida na segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2) – Mobilidade Urbana. A intervenção contemplava, entre outros fatores, a realocação dos pontos de ônibus, construção de baias e readequação dos passeios. Na verdade, tratava-se de um pacote mais amplo, que previa ainda a revitalização das avenidas dos Andradas e Francisco Bernardino, além da Rua São Mateus, em bairro homônimo. De todo este pacote, apenas uma meta está prestes a ser alcançada, que são os calçadões das ruas Batista de Oliveira e Marechal Deodoro. Os demais não saíram do papel e permanecerão desta forma, pelo menos durante este ano. Outra meta prevista, o binário na Rua São Mateus, também foi retirada porque foi constatada que a execução custaria mais do que a viabilidade financeira permitia.

O fotógrafo Renan Ferreira, 26 anos, morador do Bairro Nova Era, Zona Norte, afirma que percorrer a Getúlio Vargas é sempre desconfortável. “Na última semana, já estava no ponto há mais de 45 minutos e, quando finalmente o coletivo apontou na esquina da Rua Afonso Pinto da Mota, várias pessoas começaram a se agitar para o embarque. Como havia muita gente, transitar era complicado. Comecei a ouvir ‘cuidado com a bolsa, cuidado com a bolsa!’ recomendado em uníssono, e, quando olhei para trás, um homem corria abraçado a uma pasta. Ele se desvencilhou das pessoas e sumiu após atravessar a via. Só ao subir no coletivo constatei, aliviado, que nenhum dos meus pertences havia sido levado”, contou, acrescentando que outra senhora, no mesmo coletivo, não teve a mesma sorte. “Roubaram seus cartões de crédito e o cartão do plano de saúde. Não consegui chegar perto dela até o final da viagem, porque, àquela altura, o ônibus já estava lotado.”

Travessia perigosa

O tumulto gerado nos pontos é apenas um dos problemas enfrentados diariamente na via. Outro é a falta de travessia segura, que resulta em imprudência a todo o momento. A Tribuna percorreu a via, a pé, na semana passada, com uma câmera nas mãos. Apesar de o experimento ter sido feito fora do horário de pico, a aglomeração de pessoas já era grande, assim como os abusos dos pedestres entre os carros, observado em todos os momentos.

Pedestres prejudicados

Há ainda a questão dos passeios, formados por pedras portuguesas. Em vários pontos, as calçadas estão quebradas, com pedras soltas, irregulares e gradis de captação de água pluvial danificados. Pior para crianças, idosos e pessoas com deficiência. De salto, a secretária Marlene Caetano, 38, caminhava olhando para o chão. “Preciso do calçado por causa do trabalho, mas se equilibrar na Getúlio Vargas é muito perigoso. Se não andar olhando para o chão, posso até torcer o pé.”

Outro detalhe que incomoda os pedestres é o perigo observado em dias de chuvas. “Imagine o ponto lotado com a chuva caindo? As marquises não dão conta, é gente passando a todo o momento, algumas até com sombrinhas abertas. É o caos. Às vezes, evito a Getúlio Vargas, embarcando próximo ao Santa Cruz Shopping”, afirmou a balconista Maria Cláudia Aguiar, 33.

Obras dependem de projetos

Em 2013, a Câmara Municipal autorizou a Prefeitura a tomar empréstimo, no valor de R$ 30 milhões, junto ao Governo federal, para a reestruturação de vias do Centro. Além do montante, contemplado por meio da segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), o Município deveria, ainda, entrar com contrapartida de R$ 1,5 milhão. De todas as metas previstas na época, apenas uma está licitada e prestes a iniciar a obra, que são os novos calçadões nas ruas Marechal Deodoro e Batista de Oliveira, que depende apenas da assinatura do contrato e definição do cronograma de execuções. Para os demais, incluindo a Avenida Getúlio Vargas, falta entregar os projetos básicos. O problema é que o prazo dado pelo Ministério das Cidades termina em 30 de dezembro, e não há ainda sinalização de que esta meta será cumprida em tempo hábil.

De acordo com o Ministério das Cidades, a Prefeitura foi contemplada com a viabilidade do empréstimo para promover reestruturações urbanoviárias em corredores de tráfego do Centro, construir baias para pontos de ônibus, fazer os calçadões e requalificar os passeios da área central, “dotando-os de elevados padrões de conforto, segurança e acessibilidade”. Já o binário do Bairro São Mateus, que teria como objetivo resolver os gargalos no tráfego de parte da Zona Sul, foi retirado do projeto “devido à dificuldade da Prefeitura em aumentar a contrapartida, depois do aumento verificado com a atualização dos custos do projeto”.

Calçadas Quebradas são um obstáculo a mais para os pedestres que já têm dificuldades em se locomover na avenida (Foto: Marcelo Ribeiro)

Calçadas Quebradas são um obstáculo a mais para os pedestres que já têm dificuldades em se locomover na avenida (Foto: Marcelo Ribeiro)

Estudos detalhados

Conforme a subsecretária de coordenação e projetos da Secretaria de Obras, Roberta Ruhena, os projetos pendentes também serão pagos por meio deste financiamento, a partir de licitação pública. Para esta fase ter início, foi enviado à Caixa Econômica Federal o termo de referência da proposta, ainda em análise.

“Os projetos básicos (exigidos pelo ministério) não são suficientes para licitar e executar a obra, por isso vamos fazer estes estudos mais detalhados. Resolvemos fazer desta forma para evitar problemas no futuro”, disse Roberta. Perguntada se esta fase será vencida em tempo hábil, disse esperar que sim, embora entenda que, como o pacote já está assegurado pelas obras dos calçadões, não deverá haver riscos de perder a viabilidade financeira.

Para as obras saírem do papel, e a Avenida Getúlio Vargas ser reestruturada, outros trâmites precisarão ser vencidos. Entre eles, a aprovação dos projetos pelo Ministério das Cidades e a formatação de um edital para processo licitatório de execução. Não foi informado detalhadamente o que será feito na via. Roberta se limitou a dizer que a ideia é trabalhar em questões, como acessibilidade, mobilidade e melhoria do transporte coletivo na área.

Necessidade de rever o Centro

O arquiteto e historiador Marcos Olender, que é professor do Departamento de História da UFJF, afirma que o Centro de Juiz de Fora deve ter o seu papel revisto. No caso da Avenida Getúlio Vargas, ele cita o fato de a mobilidade urbana estar prejudicada por causa da ausência de planejamento do crescimento da própria cidade. “Existe muito tráfego na Getúlio, mas não existe uma política de redução deste movimento, como por exemplo a proibição de carros particulares na avenida em benefício ao transporte público e estímulo a outros modais. Além disso, todos os ônibus convergem ao Centro”, citou, afirmando ser esta uma causa para a elevada aglomeração de pessoas na área. “Soma-se isso ao fato de a construção civil permanecer aquecida nesta região da cidade, que se torna cada vez mais adensada e, consequentemente, prejudicando ainda mais a mobilidade.”

Olender foi questionado sobre o fato de a Getúlio Vargas possuir muitas construções antigas, algumas até preservadas, mas que acabam passando despercebidas por causa da poluição visual. Para resolver isso, na sua opinião, a revitalização da avenida deve ser feita de forma a melhorar a qualidade dos pedestres. “Isso se faz revendo o dimensionamento das calçadas, melhorando a arborização e estimulando o transporte limpo. Tudo isso pode ser resolvido com planejamento urbano.”

Novos Calçadões

Sobre os novos calçadões, previstos para as ruas Batista de Oliveira e Marechal Deodoro, o arquiteto diz considerar um avanço, embora seja preciso ficar atento à execução do projeto. “Porque acessibilidade não se faz apenas no discurso. O projeto das calçadas da Rua Santo Antônio era bom, mas a execução se tornou deficitária, com postes sobre rampas para cadeirantes e outras falhas graves. De um modo geral, é preciso respeitar as características do Centro e o seu limite de crescimento, para que a estrutura consolidada seja agradável.”

 

Postado originalmente por: Tribuna de Minas – Juiz de Fora / MG

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