Pacientes alertam para risco de contrair tuberculose em JF

Inadequações na sala onde é realizado o atendimento a pacientes com tuberculose em Juiz de Fora têm preocupado pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). A principal reclamação é com relação à falta de janelas no Setor de Tisiologia, divisão destinada ao tratamento dos pacientes, localizada na loja 7 do PAM-Marechal. Por não haver ventilação, a preocupação é com o risco de contaminação, visto que, em ambientes mal ventilados, o bacilo causador da doença pode permanecer no ar por até 12 horas. Há relatos de ex-funcionários do PAM-Marechal que acreditam terem contraído a doença apenas por trabalharem perto da sala. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que a tuberculose é a doença infecciosa que mais mata no mundo. Em Juiz de Fora, foram registrados 309 casos de tuberculose em 2017. Levantamento que coloca a cidade em segundo lugar na lista dos municípios com maior número de casos da doença em Minas Gerais, atrás apenas da capital Belo Horizonte.

Apesar do tratamento oferecido ser efetivo quando feito do início ao fim e de haver campanhas de conscientização realizadas pela Secretaria de Saúde da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), a estrutura física é motivo de insatisfação e medo. “A estrutura não é adequada. Na verdade, o prédio todo é uma vergonha. Com certeza eu peguei essa doença lá. A iluminação é muito ruim, fraca, a ventilação não é a ideal. Eu passava muito tempo no prédio trabalhando, e muitas vezes fazia hora extra. Eu tinha muito contato com muitos pacientes, inclusive com os que se tratavam no setor de tisiologia”, relatou o ex-funcionário do PAM, Wagner Luis Ferreira, 40 anos. Ele atuava no Departamento de Clínicas Especializadas. No entanto, de acordo com ele, algumas vezes era deslocado de setor para realizar outros trabalhos, principalmente de fiscalização e orientação de usuários. Por esse motivo, ele permanecia por muitas horas no térreo, próximo ao Setor de Tisiologia.

A circunstância, em sua avaliação, o levou a adquirir e a ser diagnosticado com tuberculose em outubro do ano passado. De lá pra cá, ele afirma que fez o tratamento durante seis meses e que aguarda avaliação para saber se está curado.

“Depois que recebi o diagnóstico precisei me afastar do trabalho, e logo depois disso fui exonerado. Atualmente, estou desempregado e tentando me recuperar. Mas o pior foi saber que eu tinha pegado a doença lá. Na mesma hora (que recebi o diagnóstico) eu desmoronei, não sabia nem o que fazer. Até eu me acostumar com essa ideia, fazer o tratamento, passei por uma fase muito difícil na minha vida. Os pacientes e profissionais correm o risco, com certeza, de pegar essa doença no local”, afirmou.

Wagner informou não ter conhecimento sobre casos de outros pacientes que frequentam o PAM-Marechal e que teriam sido diagnosticados com tuberculose. Contudo, ele afirma que outros colegas tiveram de ser afastados de suas ocupações para realização de quimioprofilaxia – medida para a prevenção da infecção ou para evitar o desenvolvimento da doença nos indivíduos infectados. “No PAM-Marechal não existe um local de isolamento para pessoas com tuberculose. No local onde está funcionando muitas pessoas ficam expostas. É uma situação muito difícil da nossa cidade, que merecia uma atenção da Prefeitura”, analisou.

“Condições deploráveis”

O paciente Kleber Aprigio Moreira, 34 anos, é atendido no setor há cinco meses. Ele recebe tratamento contra a tuberculose, que atacou sua garganta, um pulmão e um testículo. Ele tem artrite reumatóide juvenil, doença autoimune, fator que facilitou o contágio. Apesar de avaliar de forma positiva o atendimento e o serviço, Kleber também denunciou as más condições do local.

“Eu tenho essa doença, e por isso fico vulnerável. Passei muita coisa até descobrir a doença. Inclusive, as funcionárias do setor de tisiologia são muito eficientes. O atendimento é excelente, lá você chega em um dia e no outro é atendido, mas as condições do espaço são deploráveis”.

Ele também relatou à Tribuna que as salas e consultórios não têm ventilação, e que a única abertura é a da porta de entrada para o setor, no térreo do prédio. “Qualquer pessoa que passa ali na porta está correndo risco, ainda mais se alguém tiver alguma doença autoimune, como eu. Os funcionários correm risco. O espaço é muito fechado e facilita a contaminação. Eu já questionei as enfermeiras que trabalham lá se elas não têm medo de pegar a doença, porque a chance de contaminação ali é alta e isso é um absurdo, um descaso. A tisiologia deveria ser uma ala separada, uma área de espaço aberto”, opinou.

Serviço poderá ser transferido para o HU

Questionada, a Secretaria de Saúde explicou que são atendidos no Setor de Tisiologia pacientes da rede de atenção secundária, isto é, quando o caso extrapola o nível de atendimento das Unidades Básicas de Saúde (UBSs). A pasta pontuou ainda que um grupo de trabalho da PJF estaria em processo de negociação com a direção do Hospital Universitário (HU/UFJF) para que o serviço de tisiologia seja transferido para as dependências do prestador.

Falta de circulação de ar aumenta risco de contaminação, diz especialista. Em local fechado, permanência do bacilo causador da doença poderá durar até 12 horas

Sobre a situação do ex-funcionário da unidade, a pasta pontuou que não é possível afirmar que o paciente tenha adquirido a doença no local. De acordo com a secretaria, seria necessária uma investigação mais aprofundada sobre o caso, que levasse em consideração condições de saúde do paciente e outros fatores.

No texto, a pasta ainda informa que está ciente dos desafios no controle da doença, e que a partir das demandas pontuadas pelo Comitê Técnico de Prevenção e Controle da Tuberculose, atua com frentes de trabalho na atenção básica e também com as ações do “Consultório na Rua”, em que a equipe responsável verifica pontos estratégicos de abordagem a moradores em situação de rua. A pasta citou ainda que, além de identificar, o grupo é responsável por direcionar o paciente para uma unidade de saúde ou fazer o acompanhamento do caso.

PAM-Andradas

Antes de ser deslocado para o atual endereço, o Setor de Tisiologia funcionava no prédio do antigo PAM-Andradas, na Avenida dos Andradas. A mudança, em fevereiro de 2016, aconteceu devido à instalação do Centro de Hidratação contra Dengue no antigo espaço, conforme divulgou a Prefeitura, na época. Segundo texto publicado pela Secretaria de Saúde, o centro funcionaria no local por 90 dias. Apesar disso, a pasta não garantiu que o Setor de Tisiologia voltaria a funcionar no antigo local após esse prazo.

Até fevereiro de 2016 Setor funcionava no antigo PAM-Andradas. Atualmente local está fechado e sem condições de uso. PJF alega não haver verba para reforma do prédio (Foto: Olavo Prazeres)

Por outro lado, o ex-funcionário do PAM-Marechal ouvido pela Tribuna disse que, na época, foi garantido aos servidores do setor que, após o funcionamento do centro de hidratação, os serviços de tisiologia voltariam a ser oferecidos no antigo endereço. Conforme informações apuradas pela Tribuna, o espaço do antigo PAM-Andradas oferecia melhores condições para o tratamento de tuberculose – com salas amplas, circulação de ar e grandes janelas que permitiam ventilação e entrada de luz natural.

Com relação ao questionamento sobre o uso do PAM-Andradas, a secretaria informou, em nota, que não haveria condições de uso do prédio nas atuais circunstâncias, sendo necessária uma reforma que, no entanto, não seria viável ao Município devido à crise fiscal.

A reportagem também solicitou dados atualizados sobre os casos de tuberculose em Juiz de Fora, mas a Secretaria de Saúde informou que o dado mais atualizado é o de 2017, e que não há números mais recentes devido às especificidades da doença, como o longo período de tratamento, que impede que os dados sejam inseridos com antecedência no sistema.

Falta de circulação de ar aumenta risco de contaminação, diz especialista

Chefe do Setor de Gestão da Qualidade e Vigilância em Saúde do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU/UFJF), o infectologista Rodrigo Daniel de Souza explica que a tuberculose é transmitida de pessoa para pessoa nas formas pulmonar ou laríngea – tipo que acomete as cordas vocais – por meio dos chamados aerossóis, partículas microscópicas onde há o bacilo da doença e que ficam em suspensão no ar mesmo após um paciente infectado deixar o ambiente. A permanência desta bactéria em determinado espaço pode variar de cinco a 12 horas. Portanto, em ambientes onde há a presença de pacientes com tuberculose e pouca circulação do ar, há o risco de uma pessoa não contaminada adquirir o bacilo.

A partir disso, ela pode ou não desenvolver a doença, explica o médico. “Então, a pessoa respirando o mesmo ar que o contaminado, há um infecção inicialmente pulmonar, que pode não manifestar a doença naquele momento ou, ainda, vir a manifestá-la no futuro, em meses ou até anos. Portanto, para evitar ou diminuir o risco de contaminação, tanto as residências quanto os estabelecimentos de saúde devem ser muito bem ventilados”.

Em relação aos locais onde há tratamento de pacientes com a doença, Rodrigo sustenta que a repartição “deve ser muito bem protegida, até porque um paciente não tem o mesmo tipo de tuberculose que outro; um pode ter uma tuberculose comum, mais simples, totalmente sensível aos tratamentos, enquanto outro paciente que também esteja em tratamento pode ter o tipo resistente da doença. Ao colocar os dois em um mesmo ambiente com as condições inadequadas, você está expondo esse paciente com tuberculose sensível a adquirir uma forma resistente da doença. Com isso, o tratamento feito para a tuberculose normal não irá ter efeito para a forma resistente da doença, que inclusive é um caso de emergência pública”.

Nestes casos, a complexidade do tratamento, de acordo com o médico, é maior e, geralmente, é feito em setores específicos, o que demanda uma adequada infraestrutura para que se reduza os riscos de transmissão cruzada entre esses e outros pacientes e profissionais. No caso de funcionários que atuam em estabelecimentos de saúde, o infectologista aponta medidas a serem tomadas para protegê-los. “Os estabelecimentos de saúde deveriam fazer, anualmente, o exame PPD, que é um teste intradérmico para detectar se uma pessoa está infectada com o bacilo da tuberculose. Caso neste intervalo acuse positivo, a recomendação é que a pessoa faça um tratamento chamado Tuberculose Latente, antigamente chamado de quimioprofilaxia. Isso quer dizer que a pessoa tem a doença e ainda não manifestou sintomas. Com esse tratamento, diminui-se o risco de adoecimento por tuberculose”.

Soluções

Na impossibilidade de haver circulação natural de ar, a solução pode ser a utilização de mecanismos de ventilação e exaustão mecânica. “O ambiente precisa ser muito bem ventilado e é preciso cuidado com a saída desse ar, que pode ter o bacilo. Esse ar pode ser levado por dutos para um área mais elevada ou pode-se instalar filtros na saída dos dutos de exaustão”, explica o infectologista Rodrigo Daniel.

Além destas técnicas, o médico diz que a utilização das máscaras de proteção não são dispensáveis. No entanto, ele complementa que, erroneamente, as pessoas se sentem seguras apenas com a utilização do equipamento. “O profissional que realiza atendimento aos pacientes com tuberculose, devem utilizar o equipamento de proteção individual durante toda a sua jornada. Mas, ainda assim, a utilização apenas máscara não é uma garantia melhor que a do ambiente, e que as soluções de engenharia. É fundamental que o ambiente seja arejado. Isso garante mais segurança do que a utilização da máscara, o que não dispensa seu uso”, pontuou.

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Postado originalmente por: Tribuna de Minas – Juiz de Fora

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