Projeto Acorde inspira e desperta os jovens para a música

Foto: Reprodução

Ao entrar no corredor, o som doce de uma flauta percorre as distâncias conosco, vindo ao nosso encontro, ficando mais forte a cada passo. Antes mesmo de abrir as portas do ‘Projeto Acorde’ no segundo andar do Instituto Padre João Emílio, a presença dos sons vai se tornando mais familiar, tanto para o visitante, que é apresentado ao projeto, quanto para o grupo de 25 crianças que fazem parte da primeira turma, que entra no sexto mês da vivência e alarga seu contato com a linguagem musical. Além de todo o vocabulário de notas, tons e acordes, há também uma outra possibilidade de escrita estimulada pelo projeto, que é a escrita dos sonhos.

Um dos sonhos cultivados pelo projeto é o de Júlia Beatriz de Oliveira Feitosa Minas, de 13 anos, que teve o seu primeiro contato com a música dentro da igreja. “Estou aprendendo tudo o que eu queria aprender, como o aquecimento de voz. Eu não sabia aquecer e agora, sabendo fazer, canto melhor.” Ela pretende se tornar uma cantora. O projeto, além de aperfeiçoar uma habilidade natural, ainda a ajuda a ficar mais calma. Além do efeito comentado por ela, outras mudanças já podem ser comemoradas, de acordo com o diretor do Acorde, padre João Francisco Batista da Silva. “Em contato com pais, professores e diretores, ficamos sabendo que alguns deles estão apresentando comportamentos diferentes e essas novas formas foram elogiadas. Acredito nesse poder transformador que a música tem. É muito bonito observar eles chegando sem saber nem uma nota musical e, em pouco tempo, já estarem tocando.”

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Rafaela Melquíades de Oliveira, 13 anos, também é uma das participantes da primeira turma do projeto, iniciada em março desse ano. Ela alimenta o sonho de se tornar professora ou cantora. “Tinha muito interesse em aprender música. Fiquei muitos anos no Instituto Padre João Emílio e tive que sair. Fui para o conservatório, mas precisei sair e depois, não tinha vaga. Fui avisada dessa oportunidade e como o instituto é um lugar que eu amo, decidi me inscrever.” Ela está aprendendo a tocar flauta e violão, mas também quer fazer canto. Antes do projeto, as manhãs de Rafaela eram ociosas, porque ela estuda à tarde.

A caçula do grupo, Lara Cristine Ferraz Lima, 9 anos, confidencia que suas músicas favoritas são as cantadas em inglês e demonstra um apreço lúdico pela prática a qual é apresentada. A menina conta que a cantora estaduniense de origem cubana Camila Cabello é uma referência de canto para ela. “Sempre quis aprender a tocar flauta e outros instrumentos musicais e a cantar. Estou aprendendo a tocar flauta e a ler partitura. Gosto muito do som da flauta. Minha música favorita é Havana.” No meio de tantos sonhos e intenções, vão surgindo também rascunhos de como essas vivências podem ajudar sobre a escrita do futuro. É o caso de Karine de Almeida Eduardo, 12 anos, que, além de mirar em uma oportunidade de entrar no mercado de trabalho, também reforça sua conexão com a família. “Meu tio Vítor toca baixo em uma banda. Ele toca reggae, jazz e outros tipos de música. Minha tia Vânia canta em casamentos. Eu quero tocar flauta transversal e bateria também. Quero ser profissional e, até mesmo, tocar em outros países.”

Capacitar e formar

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Nas partituras que escrevem com a ajuda do projeto, as jovens abrem possibilidade de compor novas histórias. Esse breve contato com algumas ideias das participantes ajuda a entender os dois objetivos maiores do projeto, segundo o seu idealizador, Dom Gil Antônio Moreira, arcebispo metropolitano. O primeiro é vir a capacitar crianças e adolescentes para que, futuramente, se possa formar uma orquestra sinfônica e/ou coral para a arquidiocese. A segunda, que também representa a alma do projeto, é oferecer educação musical como oportunidade a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

“A música é muito empolgante, mas, ao mesmo tempo, muito exigente. Ela ocupa muito o tempo. Tempo esse em que essas crianças e adolescentes ficavam na ociosidade, às vezes, correndo risco. Essa é uma boa forma de oferecer formação, que pode se tornar uma carreira, e, além disso, também pode despertar talentos”, afirma o arcebispo. Ele ainda salienta que a oportunidade é uma maneira de fazer com que esses talentos não se percam por falta de um lugar que os acolha e os direcione.

Para o padre João Francisco Batista da Silva, além de apresentar um caminho, o projeto também fala sobre disciplina e dedicação, para que essas crianças e adolescentes tenham uma visão do que significa a vida adulta e de como podem se preparar para chegar lá. “O significado de Acorde é, exatamente, esse desejo de despertar. O despertar da pessoa para a vida. A música tem um poder muito grande, no sentido de humanizar. Costumo dizer que o ser humano faz música e a música faz o ser humano. A pessoa que ouve a música se sente melhor. A pessoa que faz a música se sente melhor. Ela nos coloca nessa perspectiva diferenciada de busca para se tornar uma pessoa melhor.”

O Acorde se prepara para receber a segunda turma. As inscrições podem ser feitas na instituição, na Rua Isabel Bastos, 127, Bairro Alto dos Passos. Podem participar pessoas de 9 a 17 anos em situação de vulnerabilidade. A única exigência é que o participante esteja matriculado regularmente em uma escola. As aulas acontecem às terças e quintas-feiras, das 7h15 às 12h. O curso tem duração de um ano. O projeto também recebe a doação de instrumentos musicais em bom estado de conservação, para serem usados nas aulas.

Passo a Passo

De acordo com o padre João Francisco, a primeira lição é sobre integração. Ele salienta que a música está ligada a uma tradição, principalmente tendo em vista a relação da Igreja Católica com ela. A porta de entrada é o convívio no grupo social que se forma pela turma e, na sequência, há o desenvolvimento da musicalização, o ensino da teoria musical, o canto e a flauta doce. Em uma segunda etapa, os aprendizes são apresentados ao violão. “O patrimônio universal da música é muito grande, não podemos perder nada. Não jogamos nada fora. Partimos do que as crianças já conhecem. Todo o ensino musical parte disso, de algo que a pessoa já conheça, para ajudá-la a construir uma relação com o patrimônio musical como um todo. O fato de sermos uma instituição religiosa nos coloca numa perspectiva da música sacra. Não só a música sacra, mas também a música sacra, que, às vezes, fica fora de outras escolas”, detalha o padre.

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Postado originalmente por: Tribuna de Minas – Juiz de Fora

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