Refeições e cestas básicas alimentam a fome e a esperança por dias melhores

“Fazer o bem sem olhar a quem” é um ditado popular bastante simples e que tem muito a nos ensinar. Apesar desta pandemia provocar um cenário bastante desanimador e desafiador, em Juiz de Fora, há pessoas e entidades motivadas em exercer o senso de empatia e de solidariedade, distribuindo lanches, quentinhas e cestas básicas, alimentando a fome e a esperança de quem está passando por dificuldades financeiras e estruturais.

Um desses exemplos é a ação liderada pelo ativista social Filipe Abranches, chamada de Rede de Bem. Há duas semanas, ele começou a arrecadar alimentos para montar cestas básicas e levar até famílias necessitadas. “Eu já ajudava esporadicamente quando ficava sabendo de algum caso, mas quando uma amiga da minha esposa pediu ajuda para a irmã dela, que tem três filhos, resolvi iniciar uma ação coletiva no meu trabalho, que fica no Centro Empresarial José Rocha, na Rua Santo Antônio. Ali montei um altar para que as pessoas que circulam por ali pudessem ver e deixar sua colaboração. Desde então, esse ponto de encontro tem ajudado aqueles que querem, mas não sabem onde e como ajudar.”

O ativista Filipe Abranches, há duas semanas, arrecada alimentos para doar cestas básicas (Foto: Divulgação)

Ao longo da campanha, as doações de alimentos como arroz, feijão, óleo, açúcar, café, fubá, farinha de trigo, farofa, leite, sal, macarrão e biscoitos, além de itens de higiene, incluindo fraldas e absorvente, resultaram na entrega de 40 cestas. O encaminhamento das mesmas, segundo Filipe, ocorre de duas formas: por indicação e por meio da parceria com uma igreja evangélica, que possui um projeto assistencial e realiza o cadastro de famílias que residem em comunidades e bairros da periferia.

“A ideia no começo era convencer os comerciantes a colaborarem. Mas tem dado tão certo que pessoas que moram perto do Centro descobriram ali um ponto confiável para as doações. Qualquer pessoa pode doar e colaborar. Acredito que, com a pandemia, as pessoas começaram a fazer ainda mais ações comunitárias. É cultural e cristão, embora a gente só repare em momentos de crise. É doído chegar nas casas das pessoas e ser recebido com humildade e com um pouco de vergonha. Mas ao mesmo tempo, ver a alegria e o alívio delas pessoas é desconcertante. Lava a alma.”

Essa dura realidade também tocou e incentivou a coordenadora da Organização Não Governamental (ONG) Anjos da Rua, Lúcia Moreira, a ampliar a assistência já fornecida pela entidade. Há quatro anos, ela e outros 70 voluntários atuam no preparo de quentinhas para distribuir a pessoas que se encontram em situação de rua, assim como roupas e cobertores. Mas, nos últimos tempos, notou que parte daqueles que vinham buscar a refeição era formada por famílias que ficaram sem renda por conta da pandemia e que não tinham o que comer dentro de suas casas.

“São pessoas que ficaram sem trabalho, muitas com crianças pequenas e que têm como principal refeição do dia aquela que é servida pelas escolas, que foram fechadas. Percebemos que outros trabalhadores, como lixeiros e porteiros, vinham pegar as marmitas, pois também relataram estar enfrenado problemas financeiros. Ali fomos conhecendo as histórias e começamos a pegar doações para montar as cestas básicas. Ao todo já entregamos 600, dessas, 60 foram para Santos Dumont e outras 60 para Rio Pomba”, lembra Lúcia.

Na ONG Anjos da Rua, 70 voluntários entregam quentinhas à noite na região central (Foto: Divulgação)

Além das cestas, a ONG continua fazendo a distribuição das marmitas à noite na região Central, duas vezes por semana, sendo 200 em cada dia. “Temos pedido para que as pessoas façam a doação de alimentos, que nos ajudam tanto na montagem das cestas quanto na produção das refeições. Além disso, podem ser doados materiais de higiene pessoal. Nossa rotina tem sido muito puxada, pois estamos trabalhando com a equipe reduzida, pois 20 dos nossos voluntários são idosos e estão em suas casas, por serem do grupo de risco. Mas quando encerramos o dia, o sentimento que fica é o de gratidão. Em cada entrega, uma emoção. Tem muita gente precisando”, ressalta.

Somando ainda mais forças na distribuição de refeições, a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social (SDS), está servindo 1.645 refeições diárias à população em vulnerabilidade social. As mesmas estão sendo servidas nas casas de Passagem para Mulheres e para Homens, da Cidadania, do Centro de Educação do Menor (CEM), na Dilermando Cruz e Santa Luzia e nos centros de Convivência do Idoso (CCI) e Pop.

Animais de rua também são assistidos

Outras iniciativas que têm ajudado pessoas em situação de rua são os projetos do Instituto Faça, que foi criado no final de março com a finalidade de diminuir a fome de pessoas em vulnerabilidade social, que foram diretamente atingidas pela pandemia e pelo isolamento. Conforme conta Luise Tiara Benini do Amaral, uma das voluntárias da ONG, as primeiras ações foram dentro do projeto “Faça contra a fome”, com a distribuição de lanches (pão com carne).

O Instituto Faça distribui entre 230 e 250 lanches, atendendo diariamente a 200 pessoas (Foto: Divulgação)

“Começamos distribuindo cerca de 20 sanduíches. Com a chegada de mais voluntários, fomos aumentando as equipes e a quantidade de lanches, passando a entregar 50 pães, depois 70 e cem. Hoje, distribuímos entre 230 e 250 lanches, além de garrafas de água e frutas, atendendo diariamente 200 pessoas, de segunda a segunda, sem pausa para feriados e finais de semana. O trabalho voluntário é um aquecedor de almas. Especialmente nesse cenário tão complicado da pandemia, com o medo, o isolamento e a solidão, amenizar o sofrimento do outro no presente nos ajuda a esquecer um pouco dos nossos problemas”, destaca Luise.

Neste contato direto com as pessoas em situação de rua, os voluntários da ONG sentiram a necessidade de fornecer outros itens, como ração aos animais de rua, sobretudo aqueles que são cuidados por esta população e que também estavam passando fome. Assim, surgiu o projeto “Faça pelos animais”, distribuindo aproximadamente oito quilos de ração por noite.

Outra medida foi a doação de cobertores e meias, para conter o frio. “Criamos o “Faça contra o frio”, um projeto para a entrega desses materiais. Chegamos a comprar 500 cobertores. Recentemente, fizemos uma parceria com a lavanderia Higilav Higienização, que vai higienizar peças de roupas doadas na campanha do agasalho, que faz parte desse projeto também”, comenta.

Empresas empenhadas na distribuição de donativos

Além dessas iniciativas, empresas e entidades de Juiz de Fora têm se mobilizado. Uma delas é a MRS Logística, que, desde o começo da pandemia, tem avaliado os impactos causados por ela nas cidades por onde trafega e feito ações corporativas, como o encaminhamento de alimentos, itens de higiene e álcool em gel. Até junho, a meta é entregar cerca de 15 mil cestas básicas e kits de higiene para secretarias de assistência social e instituições de amparo presentes em 38 municípios, distribuídos por Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

Em Juiz de Fora, a primeira leva de doações aconteceu em abril. Segundo a gerente geral de Relações Institucionais MG, Daniela Junqueira, na ocasião, dez instituições foram beneficiadas com cestas básicas, kits de higiene pessoal ou material de limpeza. Em junho, a cidade vai participar de uma nova rodada de doações, quando serão distribuídas 1.500 cestas básicas e kits de higiene a outras nove instituições da cidade.

“A MRS entende que tem um compromisso social. Estamos apoiando várias frentes, tanto aquelas voltadas para pessoas em situação de vulnerabilidade quanto iniciativas para compra de equipamentos médicos essenciais à assistência aos pacientes graves e disponibilização de mão de obra ao apoio técnico de recuperação e manutenção de respiradores. A pandemia da Covid-19 é um grande desafio e será superada com a participação de todos”, comenta Daniela.

Meta da MRS Logística é entregar 15 mil cestas básicas e kits de higiene a secretarias de cidades em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo (Foto: Divulgação)

Programa Integrador

Outra entidade que tem realizado ações é a Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora (Suprema). Por meio do Programa Integrador – projeto institucional já existente, que articula o ensino, a pesquisa e a extensão no desenvolvimento de ações junto aos alunos na área de saúde coletiva e da família – a Suprema forneceu a doação de alimentos e higiene nos oito bairros que são assistidos pelo projeto. São eles: Vila Ideal, Furtado, Santo Antônio, Retiro, Vale Verde, Cidade do Sol, Milho Branco e Jardim Esperança.

“A Suprema, ciente de sua responsabilidade social e baseada em seus princípios humanistas, ético e solidário, não poderia se furtar de ajudar as comunidades, em especial as mais necessitadas, diante da grave situação de emergência nacional”, destaca o diretor de Ensino, Pesquisa e Extensão da Suprema, Djalma Rabelo Ricardo.

Até junho, a Suprema vai distribuir, além do total de 800 cestas básicas – metade já foi entregue no começo de maio -, dois mil frascos de 120ml de álcool 70% glicerinado a essas comunidades, além de sabonete em barra e líquido. “Todos esses materiais foram produzidos por nossos professores e técnicos em nosso Laboratório de Habilidades Farmacêuticas”, comenta Djalma. Somam-se a esse montante outros 500 litros de álcool 70% glicerinado já doados ao Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus, ao Hospital Ana Nery, à UPA Santa Luzia e às UBSs dos oitos bairros presentes no Programa Integrador

Até junho, Suprema pretende distribuir 800 cestas básicas e dois mil frascos de 120 ml de álcool 70% glicerinado em oito bairros da cidade (Foto: Divulgação)

Drive thru solidário

O drive thru solidário promovido pelo programa Gente em Primeiro Lugar, da PJF, também angariou um bom volume de donativos a serem repassados para as pessoas em vulnerabilidade social. Entre o fim de abril e início de maio, a ação ocorrida na Praça CEU reuniu mais de meia tonelada de itens, entre alimentos, material de limpeza e itens de higiene pessoal, que foram encaminhados às famílias carentes residentes na Zona Norte.

Nesta semana, o posto de coleta do drive thru funcionou no Centro Cultural “Dnar Rocha”, em frente ao Parque do Museu Mariano Procópio, e arrecadou um volume semelhante à ação anterior: cerca de 500 quilos em donativos. Este material será encaminhado às instituições parceiras do “Gente em Primeiro Lugar”, bem como a Associação de Apoio à Criança e Idosos (Bairro Nova Era), grupos Dom e Espírita Semente (Dom Bosco), Instituto “Padre João Emílio” (Alto dos Passos) e Obra Social “Padre Nilton Fagundes Hauck” (Retiro).

Blitz Solidária

A Blitz Solidária, desenvolvida pelo Grupo Solar, vem arrecadando materiais básicos para serem distribuídos entre instituições filantrópicas da cidade. Ao todo, duas edições já foram realizadas: no dia 20 deste mês quando mais de uma tonelada de materiais de limpeza foram arrecadados e na última quarta-feira, quando a ação recebeu mil fraldas, 1.500 máscaras e seis mil luvas de procedimento e máscaras descartáveis.

O montante arrecadado será encaminhado às entidades atendidas, sendo elas o Educandário Carlos Chagas; a Associação Feminina de Prevenção e Combate ao Câncer de Juiz de Fora (Ascomcer); a Fundação Espírita João de Freitas e o Lar dos Idosos Luiza de Marillac. No dia 27, a ação volta à rua para arrecadar alimentos.

Até o momento contribuíram com à iniciativa MRS Logística, Bargon Imóveis, Link Propaganda, Support Comunicação, Brasil Imóveis, Rezende Roriz Construtora, Faculdade Suprema, Superlar, Mary Milk, Colégio Equipe, a Câmara de Dirigentes Lojistas de Juiz de Fora (CDL), Produtos Macalé, Estojos Baldi, Nivelar, Sol e Neve e Baú de Fraldas. Além da colaboração de empresas, a ação também é marcada por contribuições individuais.

Postado originalmente por: Tribuna de Minas – Juiz de Fora

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