Transmissão local no caso de 2º infectado preocupa população

Infectologista Guilherme Côrtes destaca que ninguém é culpado por contrair a doença: “todas as pessoas são vítimas” (Foto: Eduardo Valente)

A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) confirmou nesta terça-feira (17) que houve transmissão local no caso do rapaz de 30 anos confirmado como sendo o segundo infectado por coronavírus em Juiz de Fora. Segundo investigação da Vigilância Epidemiológica, ele é amigo do filho do homem de 65 anos, internado em um hospital privado como a primeira vítima oficial da Covid-19 residente na cidade. Conforme o médico infectologista Guilherme Côrtes, o rapaz relatou não ter saído recentemente da cidade e não viajou para fora do país. Sobre as mensagens espalhadas em redes sociais de que essa mesma pessoa esteve no Cultural Bar no último dia 7, o infectologista orientou que quem teve contato próximo com o contaminado deve ficar em quarentena, ou seja, em isolamento social durante 14 dias. “Quem esteve simplesmente no Cultural, não”, tranquilizou.
De acordo com a SES, a transmissão local, verificada neste caso, se caracteriza quando é possível identificar o foco. Já a transmissão comunitária ocorre quando o vírus já se alastrou pela comunidade, não sendo detectada sua origem. Em relação à quarentena, o especialista esclareceu que tem sido preconizada para aqueles que foram contactantes.

“Se a pessoa teve risco, contato com algum caso suspeito ou confirmado, deve ficar (isolada) por 14 dias, que é o tempo de incubação, em que ela pode desenvolver os sintomas.”

Um dos sócios do Cultural Bar, André Luiz Pereira, disse não ser possível, no momento, a confirmação da presença do infectado de 30 anos na casa noturna. “Estamos cientes dos boatos, mas não fomos informados oficialmente por nenhum órgão sobre o nome da pessoa e recebemos identificações distintas. Estamos disponíveis para prestar esclarecimentos e já entramos em contato com os órgãos de saúde, que ficaram de nos dar um retorno.”
Mesmo assim, o sócio recomenda às pessoas que frequentaram o Cultural Bar desde o dia 28 de fevereiro a praticarem os conselhos de especialistas, como manter o distanciamento social. “Não temos controle sobre as infecções prévias do público e nem legalidade para afirmar que tivemos alguém infectado na casa. Mas tivemos datas com grande adesão pós-carnaval, e boa parte dos frequentadores havia viajado para outras cidades, como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte.” Ele lembrou que, desde a última segunda-feira, foram suspensas as atividades, seguindo determinação da Prefeitura.

‘Vamos agir com mais solidariedade’

Diante de mensagens espalhadas em redes sociais contra parentes e pessoas ligadas aos dois primeiros infectados oficialmente pelo coronavírus em Juiz de Fora, o médico Guilherme Côrtes divulgou novo vídeo nesta terça. “A razão da gravação surgiu ontem (segunda), após a circulação na mídia social local de ataques mentirosos contra familiares dos casos confirmados de Covid-19 na nossa cidade”, iniciou o infectologista, se referindo ao homem de 65 anos e ao rapaz de 30.

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“Essas pessoas tomaram ações exemplares após as suspeitas de diagnóstico, seguindo rigorosamente os protocolos de isolamento”, afirmou o especialista, tentando acalmar os ânimos exaltados no mundo virtual, com comentários de que as vítimas teriam continuado “vida normal”, frequentando locais públicos.

“Um psiquiatra amigo, que teve diagnóstico de Covid-19, me mandou uma mensagem ontem (segunda), que define muito bem essa situação: as pessoas lidam mal com o desconhecido e, com o Covid-19, estão transformando as vítimas da epidemia em verdadeiros criminosos.”

Segundo o infectologista, é importante pensar que nenhum doente por causa do coronavírus é culpado. “Todas essas pessoas são vítimas. Temos que nos lembrar que, muito provavelmente, a maioria de nós vai se infectar ao longo das próximas semanas ou um mês.” Ele lembrou ser necessário um ato de empatia em relação àquelas pessoas que estão vivendo “momentos extremamente difíceis”.

“Elas estão isoladas em seus domicílios, sozinhas, às vezes com parente internado, sem conseguir ter notícias, a não ser remotas, por vídeos, etc.”

O médico voltou a ressaltar a importância de agir solidariamente para tornar “mais brando” o caminho de enfrentamento à epidemia. “O estigma gerado também causa um impacto muito negativo no controle da epidemia. As pessoas, com receio de serem discriminadas por seus vizinhos, por seus colegas de trabalho, de escola, vão tender a esconder o seu diagnóstico ou a suspeita clínica. Portanto, menos estigma, menos preconceito. Vamos agir com mais solidariedade, com mais compaixão, mantendo distanciamento social para enfrentarmos, harmoniosamente, essa epidemia.”

Postado originalmente por: Tribuna de Minas – Juiz de Fora

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