Cinco artesãs inspiradoras para conhecer neste dia das mulheres

As mulheres são maioria no Brasil, equivalente a 51,8% da população segundo o censo do IBGE de 2019. Nas comunidades artesanais brasileiras esse número é ainda maior: as mulheres representam 90% de todo segmento. O fortalecimento do trabalho das artesãs no país acontece especialmente pelo trabalho contínuo de comunidades e instituições de apoio, como a ONG Artesol, fundada há 20 anos para fomentar toda a cadeia produtiva artesanal brasileira. Boa parte das profissionais apoiadas pela Artesol vivem em regiões com poucas oportunidades de trabalho e em comunidades distantes dos centros urbanos, neste ano de maneira agravante, diante o enfrentamento à pandemia do Covid-19.

Conheça algumas mulheres símbolos de liderança feminina através do empreendedorismo

Zélia Damasceno, do Projeto Seringô, na Amazônia

Zélia Damasceno (à esquerda), artesã e uma das gestoras do Projeto Seringô, que produz peças de artesanato para decoração e moda através do látex extraído da Amazônia – Fotos: Divulgação / Rede Artesol

Uma das iniciativas mapeadas pela ONG Artesol é o Projeto Seringô, que há mais de 30 anos capacita mulheres em toda a Amazônia para trabalhar com a produção de artesanato de encauchado (um material emborrachado criado com látex). A proposta da Seringô é gerar renda digna para mulheres que vivem em aldeias indígenas e povoados ribeirinhos. As peças produzidas, que vão de centros de mesas e sousplats a biojoias, e já foram expostas em uma das maiores feiras de design do mundo, o Salão do Móvel de Milão.

A artesã e uma das gestoras do projeto, Zélia Damasceno conta que a grande dificuldade no processo de capacitação em algumas das comunidades está na resistência dos maridos que não aceitam que suas esposas saiam de casa para participar das oficinas de formação. Por isso, em alguns casos, Zélia faz a capacitação indo até as casas das mulheres até que os cônjuges compreendam o trabalho e concordem com o envolvimento das esposas nas atividades.

Zélia explica que essa atenção individual é importante no processo de inserção das mulheres que sofrem com falta de acesso à educação e renda para que consigam se desenvolver economicamente. Ao todo, o Projeto Seringô já capacitou mais de 40 comunidades em todo o território amazônico. A lógica a partir da cooperativa criada pelo projeto também inclui os homens, que recebem aprendizado para extração do látex.

Milena Curado, do Projeto Cabocla Criações, em Goiás

Artesã e empreendedora do Projeto Caboclas, Milena Curado, com os vestidos de algodão bordados delicadamente à mão; ao centro Milena compartilhando conhecimento com as detentas no programa de remissão de pena na cidade de Goiás Velho – Fotos: Divulgação / Rede Artesol

A empreendedora e artesã Milena Curado é criadora da “Cabocla Criações”, um dos núcleos artesanais que integram a ONG Artesol em Goiás. A marca de roupas bordadas autorais aposta em elementos que retratam a cultura da cidade de Goiás Velho e referências da obra de Cora Coralina, famosa poetisa do município. Priorizando as produções artesanais das peças, Milena, que aprendeu a bordar ainda criança com sua avó Wanda, buscou empreender muitos anos depois. “A ideia de abrir um negócio surgiu com a vontade de ressignificar a técnica de um bordado antigo, queria que nossas criações tivessem identidade e originalidade. Minha avó, minha referência maior de mulher forte e determinada, me ensinou a bordar aos oito anos e depois bordou comigo até os 90 anos.” 

Com a boa recepção das roupas de sua marca, Milena decidiu compartilhar seu conhecimento com mulheres que se encontravam em regime de cárcere na prisão da cidade. Daí nasceu o Projeto Cabocla Criações, um programa de remissão de pena, a partir do qual oferecia uma ocupação, profissão e possibilidade de renda a pessoas na condição prisional. “Consegui levar oportunidade a pessoas excluídas quando ensinamos a criar, bordar e comercializar, em áreas de difícil acesso como quilombos urbanos e rurais, periferias etc. Recebemos convites de associações e prefeituras e desenvolvemos projetos de financiamento para nossas atividades junto a editais e fundos de arte e cultura”, conta Milena.

O projeto trabalha com técnicas culturais tradicionais de bordado da região de Goiás, e por isso recebeu o prêmio máximo do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e Milena tornou-se a primeira mulher do Estado a ganhar o Troféu Ouro do Sebrae para mulheres empreendedoras. Com a repercussão positiva do trabalho, posteriormente o projeto passou a envolver outros grupos de mulheres além das detentas. Para Milena “empreender só faz sentido se você conseguir transformar vidas. Tem que somar e multiplicar para construirmos um mundo melhor”.

Maria José Gomes da Silva, a Zezinha, ceramista referência no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais

Ceramista Zezinha, artesã referência do Vale do Jequitinhonha e suas bonecas pintadas com tinta natural feita com barro e água – Fotos: Divulgação / Rede Artesol

Outra integrante da ONG Artesol que merece destaque pelo protagonismo em sua região é Maria José Gomes da Silva. Zezinha, como é chamada, é uma das mais prestigiadas artesãs do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Zezinha nasceu no povoado de Campo Alegre, na zona rural de Turmalina, e, sendo a primeira de dez irmãos, começou a trabalhar aos 14 anos. Depois aprendeu a moldar o barro ao observar a mãe ceramista, se tornando uma grande referência no Jequitinhonha.

Sua obra se destaca pela delicadeza das feições e nível de sofisticação dos figurinos de mulheres moldadas na argila. “Eu me realizo nas roupas das minhas bonecas, porque quando era adolescente o meu sonho era ter vestidos chiques que minha família nunca conseguiria comprar. Por isso, eu comecei a desenhar os vestidos das bonecas no barro, joias e enfeites que eu sonhava ter”.  Aos 21 anos, Zezinha casou-se com Ulisses, que se tornou um grande parceiro, abrindo mão de sua profissão para assumir as tarefas da casa e de duas filhas do casal para que Zezinha se dedicasse à sua arte.

Zezinha e Ulisses criaram uma espécie de museu a céu aberto no jardim de sua própria casa com peças da artista e ampliaram a casa para ministrarem oficinas de cerâmica a turistas interessados. O apoio do marido foi essencial para que Zezinha transmitisse seu conhecimento para tantas outras mulheres da comunidade.

Joelma Silva, do Projeto Copartt, na Costa do Sauípe, Bahia

Joelma Silva, artesã membro da Cooperativa Artesanato do Trançado Tupinambá, após colher a fibra de piaçava dos coqueiros da Costa do SauípeFotos: Divulgação / Rede Artesol

Outra iniciativa mapeada pela ONG Artesol é o Projeto Copartt (Cooperativa de Artesanato do Trançado Tupinambá) na Costa do Sauípe, cidade de Entre Rios, Bahia.

A cooperativa representa cerca de 250 artesãs reunidas em torno de oito associações que atuam com a produção do chamado “trançado tupinambá” em meio a uma paisagem privilegiada de reservas de Mata Atlântica, manguezais e as praias pontilhadas de coqueiros, no litoral baiano. Hoje, a Cooperativa fornece peças para grandes redes como a Tok&Stok, desenvolve coleções em parceria com marcas renomadas como a Osklen e tem produtos sendo comercializados em todo o Brasil, nos EUA e na Europa. Antes de ganhar certo destaque internacional, as artesãs cresceram tramando a palha dos coqueiros como aprenderam com mães, avós ou vizinhas, herdaram o ritual de colher a palha de piaçava com manejo sustentável: tratar, tingir a fibra e criar artefatos cotidianos versáteis com um design que faz referência às paisagens tropicais onde são criadas.

Dona Vavá Silva, mãe de Joelma, uma das artesãs membro da Copartt, se orgulha de ter ensinado seu ofício às filhas, estimulando-as a preservar a natureza local que lhes dá o sustento. “Na mesma palmeira em que eu colhia a piaçava com minha mãe e minha avó, hoje eu colho com minha filha e minha neta”, conta. Joelma ressalta que a renda do artesanato foi essencial para oferecer melhores condições de vida a sua filha, especialmente nos estudos. Na atual geração de artesãs, a maioria das filhas conseguiu ter acesso ao ensino superior e hoje tem uma relação afetiva com o artesanato.

Andreia Pereira, artista plástica e artesã no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais

Fotos: Divulgação / Rede Artesol

A artista plástica e ceramista Andreia Pereira, de Santana do Araçuaí, distrito de Ponto dos Volantes (MG), que também faz parte da Rede Artesol, aprendeu com sua avó, dona Isabel Mendes, grande mestra do Vale do Jequitinhonha, a arte de criar sua própria narrativa sobre a história do seu lugar e seu povo. Andreia começou a modelar o barro ainda criança e, aos 14 anos, vendeu sua primeira peça, exibida com a produção da família numa exposição no Rio de Janeiro.

Andreia foi a primeira a buscar orientação fora do círculo familiar. Foi morar em Belo Horizonte para estudar artes plásticas na Escola Guignard. Especializou-se em pintura e cerâmica e construiu na escola, com os colegas, um forno de barro típico dos artesãos do Jequitinhonha. Terminado o curso, foi lecionar aulas em Portugal e na Espanha, mas retornou a sua cidade natal para dar continuidade à arte da família. 

Andreia se fortaleceu em suas linhagens anteriores para buscar aperfeiçoar-se como artista. “Agradeço a Deus pela minha querida avó-mãe que tem mãos abençoadas e um dom divinal. E o mínimo que posso fazer é agradecer a ela com um pouquinho do que aprendi com ela, e desejar que Deus nos permita dividir o aprendizado que me orgulha tanto”, comenta Andreia emocionada.

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Postado originalmente por: Aconteceu no Vale

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